Do Jornal do Commercio
O vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB-SP), está empenhado em dar à presidente Dilma Rousseff (PT) o que nem mesmo o ex-presidente Lula teve durante os oito anos em que despachou no Palácio do Planalto: um PMDB todo alinhado ao governo, sem vozes dissidentes como a do senador pernambucano Jarbas Vasconcelos. Antes de tirar licença da direção nacional da legenda, ele – ainda na cadeira de presidente da Câmara dos Deputados – enviou para peemedebistas que integram as Executivas estadual e do Recife uma carta com cópia de um artigo seu, publicado na Folha de S.Paulo no final do ano passado. No texto, ele critica os dissidentes, sugere a desfiliação dos que não apoiam a aliança do PMDB com o PT e, ao final, ameaça de expulsão os “recalcitrantes” – teimoso, resistente, desobediente, segundo o dicionário.
Peemedebistas que receberam a carta informaram que o envelope tinha o nome do próprio Temer como remetente, e não o da direção nacional do partido. Ou seja, foi uma correspondência pessoal, e não partidária, o que abriu margem para interpretações que vão desde a sugestão de coerência aos descontentes até um ultimato de que rebeldias não serão mais toleradas.
Em outro trecho do artigo, o vice-presidente da República faz um mea-culpa. “A pretexto da democracia interna, o partido sempre foi – permita-me o termo – leniente com lideranças que dissentiam da decisão nacional”, avaliou. Ele sugere aos insatisfeitos que saiam da legenda e chega a garantir que o partido não entrará na Justiça para tomar o assento nas casas legislativas, mesmo após o Supremo Tribunal Federal (STF) ter assegurado que o mandato eletivo pertence ao partido, e não ao político. “Quem não se conformar com as decisões tomadas em convenção nacional poderá se desligar do nosso partido, sem que este exija o mandato”, assegura.
No estilo bate e sopra, ao final ele cogita a hipótese de, na próxima convenção nacional, estabelecer “regras mais rigorosas”. Classificando a dissidência interna de “lamentável”, Temer minimiza, inclusive, as diferenças regionais – retórica usada por peemedebistas da própria base aliada para explicar em alguns casos posturas de insurgência em relação ao governo.
“Mas a disputa local não autoriza a insurgência contra a decisão nacional. Especialmente no segundo turno, quando governadores, senadores e deputados estavam eleitos”, alega. Em Pernambuco, o recado teve Jarbas e seu grupo como endereço. O ex-governador é um dos fundadores do partido. No ainda MDB, integrou, ao lado de Ulysses Guimarães, a ala dos “autênticos”, enquanto Tancredo Neves liderava a ala dos “moderados”.
Um dos fatores que levaram o senador a encarar – e perder – o embate com o governador Eduardo Campos (PSB) nas eleições 2010 foi a necessidade de garantir um palanque para o então presidenciável José Serra (PSDB-SP) no Estado. No segundo turno da eleição presidencial, mesmo já derrotados, peemedebistas pernambucanos foram às ruas pedir voto para o tucano.