Em uma década, 30 novos cursos chegaram ao interior

Dentre os motores do desenvolvimento da UFRN nos últimos dez anos, o processo de interiorização é o mais forte. Em uma década, os três campi do interior – Currais Novos, Caicó e Santa Cruz – passaram por processos de reestruturação. Trinta cursos de graduação presenciais foram criados, além dos 11 da educação a distância. Mais que isso, porém, esse ‘descobrimento’ do interior permitiu o crescimento da economia dessas cidades, informa o Tribuna do Norte.

Em Santa Cruz, na região do Trairi, é difícil não encontrar kitnets com placas de “aluga-se”. Os preços são voltados para a captação do público universitário, e chegam a até R$400. Segundo levantamento da Faculdade de Ciências da Saúde do Trairi (Facisa), a maior parte dos estudantes de Santa Cruz estão fora da região do Trairi. Em 2008, por exemplo, os alunos eram das microrregiões da Borborema, Seridó e Natal. Hoje eles estão espalhados pelo Vale do Açu, Serra de Santana, Baixa Verde…

Segundo o padre Jorge Cardoso, pároco da Igreja de Santa Rita de Cássia, em Santa Cruz, a cidade mudou completamente. “Nós temos visto o crescimento pelo testemunho das pessoas, principalmente da juventude universitária que tem crescido aqui na igreja. Muitos vêm de fora, o que aumentou a demanda por kitnets, pousadas e restaurantes”, comenta o padre Jorge.

UFRN

Essa mudança também foi observada nas cidades de Caicó e Currais Novos. Para a professora Edneide Moura Pereira Galvão, coordenadora do polo de educação a distância de Caicó, o crescimento foi visível. “Há uma política de expansão da universidade. Temos alunos do Seridó à Paraíba. Com a criação do Centro de Ensino Superior do Seridó (Ceres) em Currais, aqueles que não conseguiam se deslocar para a capital tiveram acesso ao ensino superior. Tivemos uma forte melhoria também na formação dos professores da região”, acrescenta Edneide, professora do Ceres desde 1979.

A política de interiorização da UFRN começou na década de 1970, com a criação do Centro Rural Universitário de Treinamento e Ação Comunitária (Crutac), que tinha como objetivo a extensão da Universidade nas cidades interioranas. Instalado em Santa Cruz, foi vinculado ao Hospital Universitário Ana Bezerra (HUAB). Somente em 4 de outubro de 1973 seria criado o núcleo avançado de estudos de Caicó e, em 21 de dezembro de 1977, o de Currais Novos. Na década de 1990, os dois núcleos passaram a formar o Centro de Ensino Superior do Seridó (Ceres).

A política de interiorização, porém, apertou o freio até 2002, quando os investimentos do Governo Federal nas universidades foram retomados. Em 2006, a UFRN conseguiu aprovar a criação do curso de enfermagem para Santa Cruz, o que proporcionou a abertura da Facisa. Atualmente, a faculdade possui 481 alunos nos cursos de enfermagem, nutrição e fisioterapia. Em 2015, será aberto o curso de psicologia. Segundo o diretor da faculdade, professor Ênio Walker de Azevedo, o objetivo é continuar expandindo  com a abertura de um curso de educação física e a construção de um campus universitário.

Já em Currais Novos, o foco agora é a finalização de duas obras do programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni): a reforma do bloco C de aulas e a finalização da biblioteca do campus, prevista para outubro. Também há a expectativa da criação de um bacharelado em Ciência e Tecnologia, com ênfase nas duas engenharias, mas ainda não há previsão de quando ele será incluído nas seleções anuais.

Em Caicó, a mudança mais recente foi a criação do curso de Medicina Multicampi, que iniciou as aulas em julho. Os primeiros quatro anos do curso será voltado para a inclusão dos alunos da rede básica de saúde. Os impactos, segundo a diretora do Ceres Caicó, Ana Aires, já são sentidos. “A chegada do curso, por si só, já impactou o Seridó. As pessoas conseguem visualizar a importância do Seridó ter um curso de alta concorrência. Mas acho que em um futuro muito próximo, vai trazer um impacto para a saúde”, salientou. Ainda há expectativa para criação de um curso de webjornalismo e gastronomia, duas antigas demandas do Seridó.

Curso a distância tenta conquistar credibilidade

José Alberto Batista da Silva, 42 anos – nascido em Montanhas, a 18 quilômetros da capital potiguar — sempre gostou de ciência. Entretanto, ao finalizar o ensino técnico no antigo Cefet (hoje IFRN) se viu em uma encruzilhada: procurar emprego ou continuar os estudos em Natal? Para bancar a família, precisou trabalhar como técnico hospitalar. Somente no final de 2008 resolveu pegar no batente de novo: estudando nos intervalos dos dois empregos, conseguiu ser aprovado no curso de química a distância da UFRN. Mas as dificuldades estavam apenas começando.

“É muito mais difícil (o curso EaD). O aluno precisa se dedicar muito e ter um grupo de estudos para se estimular sempre”, comenta Alberto. No final de 2012, porém, veio a maior surpresa: a aprovação para o curso de mestrado em química da UFRN. “A formação de EaD ainda tem pouca credibilidade. Foi uma surpresa para todo mundo. Mas para mim é uma oportunidade de mudança”, afirma José Alberto, que em agosto foi selecionado para o doutorado.

A realidade de Alberto é repetida entre outros 3.404 estudantes de ensino a distância da UFRN. A Secretaria de Ensino a Distância (Sedis), criada em 2003, conta com 23 polos distribuídos no RN, Pernambuco, Paraíba e Alagoas, que oferecem 11 cursos, entre licenciaturas, bacharelado, tecnólgo e especializações.

Atualmente, a EaD atua em Caicó, Campina Grande (PB), Caraúbas, Currais Novos, Extremoz, Garanhuns (PE), Grossos, Gramaré, Luís Gomes, Macau, Maceió (AL), Martins, Mossoró, Natal, Nazaré da Mata (PE), Nova Cruz, Parnamirim, Petrolina (PE), São Gonçalo do Amarante, Surubim (PE) e Tabira (PE).

Para a professora Carmem Rêgo, diretora da Sedis, o ensino a distância foi um avanço na política de interiorização da universidade. Entre 2009 e 2014, 1.518 alunos foram formados pelo EaD. Os alunos assistem aulas por meio do Moodle UFRN, uma plataforma virtual que oferece fórum de bate-papo para interação entre alunos e professores, além das atividades. Entretanto, 20h da carga horária do curso é presencial: os alunos precisam comparecer nos polos de apoio das universidades para provas ou atividades de laboratório.

Flexibilidade

“Infelizmente, o ensino a distância ainda é visto com muti preconceito, mas sabemos que o EaD ajuda a levar o ensino superior aos rincões do Rio Grande do Norte”, afirmou. Para ela, o maior benefício do ensino a distância é a flexibilidade de tempo e de possibilidades para o aluno. A professora Luciene da Silva Santos acompanhou toda a graduação de José Alberto, e hoje é sua orientadora. Para ela, a EaD tem como pilar o processo de inclusão. “É bem mais complicado para que o aluno possa aprender a superar as distâncias, mas o ambiente virtual é uma forma de inclusão. A dificuldade do professor é enxergar as dificuldades do aluno. Em compensação, é muito do aluno se dedicar e vencer”, aponta.

One thought on “Em uma década, 30 novos cursos chegaram ao interior”

  1. Eu e muitos colegas aqui de Tabira depois de tempo, esforço, contratempos mas acima de tudo fé em Deus e acreditar no ensino á distância conseguimos concluir o ensino superior.Apesar das dificuldades que o ensino EAD apresenta, por outro lado nos deu a flexibilidade de estudar e sentir-se incluso nas conquistas acadêmicas.Não foi fácil, mas não foi impossível.

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