Matéria do Jornal Cruzeiro do Sul conta história de Tabirense

tabirense-1É do descanso alheio que Severino faz a vida. Apoia-se na sombra das árvores e no papo descompromissado para garantir aquilo que a aposentadoria não garante: a sobrevivência. Todos os dias, ele acorda às 7h. Carrega seu carrinho de mão e segue, do início da avenida Arthur Bernardes, próximo à Marginal, onde reside há quase 40 anos, até a Praça do Truco, na rua Ubirajara. São quase 2 quilômetros de percurso, feito com vagareza. Afinal, é preciso cumprimentar os amigos.

Até que ele estaciona, próximo à sede da Associação de Pais e Amigos dos Exepcionais (Apae), na Vila Progresso. Ali, por volta das 8h, ele arma a rede e fica à espera dos peixes. Quer dizer, dos clientes. Sim, seu Severino é o conhecido vendedor de redes da Ubijarara. A rotina lhe fez conhecido. Lá se vão 27 anos armando e vendendo redes. Ofício que começou em 1986, quando se aposentou. “As redes são de Pernambuco. Tenho exemplares de 3 metros por 1,40 m de largura e de 4 metros por 1,80 m. Não são costuradas e a trama é resistente. Aguenta até 150 quilos”, detalha.

Os exemplares variam de valor, mas não passam de R$ 80. Além delas, Severino Pereira Neto vende mantas, para sofás e para camas. Nas mais diferentes estampas. Para agradar vários gostos. Principalmente dos paulistas. “São os que me sustentam”, avisa. Devido os 79 anos de idade, a jornada que era de 9 horas diárias, hoje é de 4 horas, ou seja, meio-dia ele retorna para casa. Um período que seu Severino divide entre os atendimentos aos clientes e o papo com os amigos. Muitos, residentes ali no bairro, que passam por ele ao ir ao mercado ou à banca de revistas.

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“Conheço muita gente aqui. Muitos compravam comigo quando jovens, trouxeram os filhos, hoje são os netos meus clientes”, comemora. Tanto é que, quando precisa ir ao banheiro, na lanchonete do outro lado da rua, por exemplo, amigos não faltam para lhe socorrer e cuidar de seus pertences. É o caso de seu Moisés Antonio dos Santos, de 64 anos, advogado aposentado, morador do bairro. Um dos que não passa um dia sem conversar com Severino. E é ele que conta sobre uma peculiaridade do vendedor: o amor pelas árvores.

“Aqui na praça, boa parte delas foi ele quem plantou”, avisa. Severino confirma. Diz que começou a plantar árvores justamente quando passou a vender redes. “Sempre gostei de plantas, de árvores. E quando comecei a vender redes, senti necessidade da sombra, para armar minha rede”, assume. Foi por isso que, ao longo dos últimos anos, ele plantou boa parte das árvores que hoje tomam a avenida Arthur Bernardes. “Não iniciei meu ponto aqui, comecei lá embaixo, próximo à Marginal. Em busca de clientes, fui subindo e plantando. Muitas delas, com sementes do nordeste, como juazeiro, abajeru”, enumera.

Iniciativa que ele levou para casa. “Muitas vezes a Prefeitura trouxe mudas aqui para que ele ajudasse a plantar, acho bonito isso”, diz dona Virgília Pereira, de 70 anos, esposa há 53 anos. E é justamente ela quem diz que por trás dessa prática nobre, existe um Severino briguento. Que brigou pela sombra, por exemplo. E que se hoje alimenta-se do descanso alheio, é porque no passado brigou pela vida. Sua jornada, destaca ela, começou com muito suor, ao nascer durante a grande seca, em Tabira, no sertão pernambucano. Filho de lavradores e com seis irmãos menores, Severino teve uma vida severina, marcada pela a fome.

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Então com 22 anos rumou para São Paulo, a terra da promessa. Um ano depois, em 1958, chegou em Sorocaba. Como só tinha até o 3º ano do ensino fundamental, precisou fazer o 4º ano do ciclo para conquistar um diploma e garantir o emprego na indústria têxtil, onde fez carreira. Foi quando conheceu dona Virgília, que por sua vez, fugia da pobreza da pequena São Miguel Arcanjo (SP). Casaram-se em 1961 e juntos uniram-se num objetivo: o de construir uma família. Tiveram seis filhos: Antonio, Rosangela, Sergio, Emerson, Denise e Renata.

Com mais de 15 anos de casados, conquistaram um terreno no jardim Maria do Carmo, onde levantaram um cômodo e mudaram-se. “Foi uma vida sofrida. Vivíamos num único espaço que era quarto, sala e cozinha”, lembra ela. “Foram dois anos para a Prefeitura instalar a água, mais quatro anos para chegar a energia. Enquanto isso, armazenávamos água e víviamos com lamparinas. Ela passava roupas esquentando o ferro no gás”, emenda ele. Foi então que dona Virgília começou a trabalhar como tecelã para ajudar na renda doméstica. E de pouco em pouco, construíram outros cômodos da casa.

Então, um dia, a artrose se fez presente nas pernas de dona Virgília e ela teve de abandonar o emprego. Seu Severino tinha acabado de se aposentar e diante da necessidade, foi arranjar o que fazer. “Foi aí que decidi vender redes”, pontua. O ofício, legalizado, lhe garante, ainda hoje, um salário mínimo. Dinheiro que, no início, lhe ajudou a terminar de criar os filhos e pagar pela aposentadoria de dona Vírgilia. Mais recentemente, é o dinheiro que lhe permite sobreviver, comprando os remédios que necessitam.

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“Eu aposentei com dois salários mínimos. A falta de política pública para aposentados fez nosso salário murchar. O que recebemos do INSS mal cobre os gastos mensais. Os remédios estão muito caros. Eu já operei das varizes. Ela também. Para nos manter, só vendendo redes”, afirma. Há 13 anos ele se converteu à Igreja Metodista. O que causou conflito junto de dona Virgília, que é católica. Apesar disso, o amor prevaleceu.

E ele não esconde que é feliz. Tem orgulho da família que formou. Conseguiu mantê-los unidos. “Não pude pagar os estudos, mas garanti a comida, o teto e as roupas de todos”, diz. Tudo para que os seus não passassem o que ele passou. Ele orgulha-se também da casa que construiu. “É simples, mas em cada pedaço dela tem minha mão. Eu a levantei, reboquei…”, detalha. E apesar dele dizer que as redes lhe mantêm, é o fato de alegrar os outros que lhe faz sentir-se vivo. Ele sabe que a vida é como o balançar da rede, vai prá lá e para cá. E que às vezes é preciso brigar para não deixar-se cair.

One thought on “Matéria do Jornal Cruzeiro do Sul conta história de Tabirense”

  1. amei a história de seu Severino, como ele deve existir uma imensidão de pessoas isso é o que o brasil ´precisa ver e ouvir de vez em quando pra refrescar- mos a mente de tão poluída que vive marcada por acontecimentos terríveis como notícias que vimos no dia a dia sobre famílias derrotadas através de drogas, prostituição, as vezes nem tempo tiveram pra se defenderem e defenderem sua própria família. PARABÉNS para o casal Severino e virgília que essa história sirva de exemplo pra muita gente. abraço.

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