TABIRA MAL-ASSOMBRADA

Caros leitores,

Tive a ideia de publicar no Blog Tabira Hoje uma nova coluna: TABIRA MAL-ASSOMBRADA, com estórias e lendas que circundam o imaginário popular da nossa “terrinha” e região, contando os mal-assombros que ainda hoje estão vivos e assustam até os mais céticos.

Se divirtam com as nossas lendas urbanas e não se esqueçam de me ajudar a recontar a nossa própria história.

José Ivan Dias

Lambada com o “Cão”

No final da década de 80 e início dos anos 90, o Brasil era surpreendido por um novo ritmo musical que dominou as rádios, danceterias e boates de todo o país. A lambada surgiu no Pará, na década de 1970, tendo como base o carimbó e a guitarrada, influenciada por ritmos como a cumbia, o merengue e o maxixe. Uma dança caliente executada por um par de dançarinos que desenvolvem passos sensuais. O figurino- para elas minissaia e para eles calça comprida, camisa regata e uma faixa na cintura- dão um tom tropical a coreografia.

Em Tabira, na década de 80, a boate o Casarão, que ficava localizada no 1º andar da loja de dona Helena Amaral, ao lado da igreja, era o point da juventude na época. Enquanto os jovens se divertiam ao som de “Like A Virgin” de Madona e “Chorando Se Foi” de Kaoma, os pais, em casa, perdiam a noite de sono preocupados com a “libertinagem” do pós Ditadura Militar, quem sabe o prenúncio do final dos tempos.

A religiosidade do sertanejo sempre foi um fator preponderante no cotidiano dos mais fanáticos. As profecias de um santo vivo- Frei Damião de Bozzano- norteava o rebanho apostólico romano, com novos mandamentos que restringiam cada vez mais o comportamento dos mais “afoitos”. Moça usar minissaia ia pro inferno de cabeça para baixo e a lambada era a dança preferida do satanás.

Foi numa dessas que a lenda da moça que dançou com o diabo na boate o Casarão. Certa vez, uma moça, que até hoje não se sabe a identidade, teria desrespeitado a mãe que a proibiu de ir em tal danceteria e contrariando o desejo da genitora, fugiu de casa e se aventurou nos embalos do Casarão. Chegando lá, a dita cuja, teria sido convidada por um rapaz de belas “feições” para dançar uma lambada.

Após o término da dança, o rapaz convidou a sua dançarina para sair e tomar um ar fora da boate. Conversa vai, conversa vem, o tempo foi passando e a moça não percebeu o avançar da hora, apressou-se para ir embora, pois tinha pela frente um “esculacho” que a esperava em casa.

Cumprimentos antes da despedida a fugitiva perguntou o nome do “príncipe” que havia lhe tirado pra dançar, o mesmo sem hesitar respondeu ser o todo poderoso Lucifér, maioral do inferno, mostrando sua verdadeira feição e desaparecendo na frente da pobre coitada, que com o assombro desmaiou.

A história ganhou grande repercussão em Tabira. Moças eram terminantemente proibidas de ir na boate que o coisa ruim havia pisado. A freguesia na boate caiu bastante e a lambada era proibida de se ouvir dentro das casas. Foi um duro golpe na juventude que saíra de um período de censuras e viviam a vida que pediram a Deus.

A censura durou pouco, o Cão não tinha dançado lambada no Casarão, era uma história inventada pelos pais que não queriam ver as filhas “perdidas” por uma dança. Em várias cidades a mesma história era contada, sendo apenas adequada a realidade local.

Com o tempo o Casarão fechou suas portas; novas danças foram surgindo, as saias tornaram-se cada vez mais “minis” e a nova juventude…  Ah, a nova juventude, é uma pena Frei Damião não estar mais aqui!

José Ivan Dias- Jornalista DRT/PE 4.444

Mande você também uma história, lenda, ou mito para nossa coluna através do e-mail: j.ivandias@hotmail.com

16 ideias sobre “TABIRA MAL-ASSOMBRADA

    • QUE MARAVILHA DE CONTO., SOU DE UMA ÉPOCA BEM MAIS ATRÁS., RS. NO MEU TEMPO O BICHO PAPÃO ERA A PERNA CABELUDA., VINDO DA CAPITAL PARA O INTERIOR., E A MULA SEM CABEÇA DO SÍTIO POCINHOS, COMO FUI SEMPRE TRELOSO ADORA FAZER MEDO AOS DEMAIS, QUANDO IA FINAL DE SEMANA PARA CASA DE UM TIA, CHAMADA ELVIRA QUE RESIDEIA NA ÉPOCA DO SÍTIO POCINHO. PARABÉNS, CARO AMIGO. ZÉ IVAN.

  1. Zé, parabéns pela publicação.Parabéns por manter viva a cultura Tabirense.
    Um xêro bem grande, cheinho de saudades de vc…do nosso povo, dos nossos costumes!

  2. Zé Iven, parabéns pela coluna, começou muito bem.
    Infelizmente, tenho que concordar com o amigo Clécio Ferreira, e ainda acrescentar: as saias estão mais “minis” e cada vez mais cedo começam a ser usadas. E pior do que isso, são as mídias influenciando os sons absurdos que dão o nome de música mderna, que nada mais fazem do que incentivar a prostituição e o consumo de bebida alcoólicas por menores, nossa juventude está cada vez mais perdida, irresponsável, que nos faz perder a esperança de um mundo melhor.
    Porém, a esperança brilha quando vemos a vitória e o reconhecimento de jovens a como Gabriela Machado, que merece os aplausos do povo tabirense.

  3. Eita José Ivan, bem q o diabo é + divertido… Suba a Serra do Povoado da Borborema, que encontrarás contos não “mal assombrados” e sim “bem assombrados”: O padre, ou até mesmo o “bezerro de ouro”, na Boa Vista, que a família Dantas bem sabe contar… Em contos, lendas e prosas somos mestres … Mas, com bem disse Tom Zé: ” _ A energia elétrica quebrou todos nosso encantos da oralidade, no sentido dos contos…” Conte comig, sei de várias, vamos passá-las para a linguagem escrita … abraços.

  4. Caro Zé Ivan, acho que ese tal de Llúcifer era BETO BRBOSA !!! ADOÇICA MEU AMOR, ADOÇICA….!!!!!!!!! Abraço e parabéns pela matéria !!!!

  5. Zé Ivan, Parabéns pelo conto!
    Apenas uma coisa acrescentarei: Se o Diabo dançava lambada… Hoje ele se veste colorido, faz coraçãozinho para o público e canta “Ela não gosta da minha roupa…”

  6. Caro amigo JOSÉ IVAN: a minha admiração por ti é muito grande como pessoa humana e muito maior ainda como jornalista,pois tens demonstrado a tua capacidade seja na coluna “ESPALHAFATOS” seja publicando esse tipo de estória e lenda da literatura de cordel principalmente por nos fazer lembrar de fatos que ocorreram na nossa querida terrinha.
    Gostaria de acrescentar que naquela época ainda se dançava lambada,forró, frevo e outros ritmos. Hoje os tabirenses estão dançando “sapateado” sob a regência do desgoverno do “novo tempo”.

    • Prezado Donato,

      As gramáticas no capítulo que trata das palavras parônimas – aquelas que possuem grafias e pronúncias parecidas- diz que História refere-se à disciplina, ao passado…É algo real. Enquanto que Estória é o conto, o mito, a lenda, algo inventado ou escrito por uma pessoa.

      Forte abraço.

  7. Pingback: O DIABO DA LAMBADA – Causos Assustadores do Piauí

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