Poetas incógnitos e renomados cultivam a tradição da poesia popular com auxílio da internet

cordel

Xilogravura remetendo a poesia no universo computacional

Se pararmos pra pensar de onde surgiu, aonde chegou e o reconhecimento que hoje é dado a literatura de cordel, podemos estar diante de uma das mais bem-sucedidas manifestações populares, cujo destino certamente permeará a eternidade. Isso porque a poesia popular está cada vez mais inserida no ambiente virtual, onde um sem número de poetas (suspendendo conservadorismos e preconceitos) vem utilizando a grande rede de computadores para “declamar” seus versos.

A origem do folheto de cordel vem desde a Europa medieval, tendo suas bases na Espanha e França. Foi posteriormente introduzido em Portugal por volta do século XVIII. Chegou ao Brasil ainda no período colonial onde se firmou principalmente no sertão nordestino. Porém, foi através das feiras-livres, pendurados em cordões, expostos em lençóis e esteiras, nas praças, portas de igreja e mercados que o cordel ebuliu, abrindo os caminhos para a firmação da poesia popular. Através desse caráter cosmopolita, evidentemente, foi por meio da oralidade (tendo em vista o eminente analfabetismo da época) que a poesia popular foi ganhando espaço na memória do povo brasileiro, em especial, do povo nordestino, e, sobretudo, nas regiões do Pajeú, no Sertão de Pernambuco e na Serra do Teixeira, no sertão paraibano.

É bem verdade que os tempos mudaram e que estamos vivendo o auge da chamada tecnocultura (cultura da tecnologia). Há aproximadamente 12 anos atrás aconteceu a primeira peleja virtual (pelo menos que se tem notícia) entre o pernambucano José Honório e o paraibano Américo Gomes.

Ao contrário do que muitos podiam pensar, a internet não provocou o fim dos folhetos. Na verdade, acabou firmando um pacto entre a tradição e a contemporaneidade criando um novo contexto para a tradição poética.

Numa rápida pesquisa no Google podemos encontrar diversos ambientes virtuais destinados aos poetas e apologistas da poesia. No Orkut, por exemplo, a comunidade Desafio de Cordel dedica parte do seu fórum para divulgar uma agenda com festivais de repente, concursos poéticos, datas de lançamentos de livros e cordéis, dicas de métrica e rima e uma vasta coletânea com fragmentos de grandes poetas nordestinos. Em outras comunidades como Pegue o mote e faça o verso diversos motes são postados para que os membros tenham a liberdade de fazer sua glosa encima do assunto.

Outra comunidade bastante movimentada é a Filosofia, prosa e poesia. Segundo seu proprietário, o tabirense e professor de matemática Júnior Guedes “A FPP além de incentivar bastante quem esta começando a escrever poesia, é também um espaço aberto pra quem já escreve e não tem onde expor seus trabalhos ou suas glosas. Numa região onde a poesia corre nas veias de seus habitantes, basta você bulir no que esta quieto para os versos aparecerem”.

Mais mesas de glosas virtuais são encontradas no Interpóetica (lançado na rede desde outubro de 2005) que é um site criado para servir como um espaço alternativo para o cultivo da poesia. Lá, também é possível encontrar um grande menu de opções que vão desde a publicação de entrevistas a galerias relacionadas ao cordel e aos poetas populares.

Abaixo, seguem os links pra você começar a divulgar suas rimas online:

Desafio de Cordel: http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=14351710

Pegue o mote e faça o verso: http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=20807962

Filosofia, prosa e poesia: http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=93338083

Interpoética: http://www.interpoetica.com/

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  1. Sem querer contrariar ninguém, vejo uma origem ainda mais remota. É certo que o “mote” e o “repente” tem no seu passado os trovadores medievais franceses e espanhois mas é prudente não esquecer dos trovadores romanos, gregos e árabes. Particularmente acho que essa “origem” é como a origem da cerveja que tem por todo lugar e acredito mais numa influência dos árabe, criadores do alaúde, instrumento de corda que originou o violão, a viola e todos os outros instrumentos da mesma familia. Convém não esquecer que os árabes dominaram a Peninsula Iberica por mais de 800 anos.

    • A referência bibliográfica para mencionar a origem do cordel foi o livro “O essencial sobre a literatura de cordel portuguesa” do escritor português Carlos Nogueira. Se não há dúvidas sobre o processo e as motivações que conduziram o aparecimento do cordel o mesmo não se pode dizer sobre sua verdadeira origem e a data precisa da sua introdução em Portugal, assim como o nome de quem o fez. Porém, o livro cita obras portuguesas do final do séc. XVIII, que pela primeira vez registram a existência do livreto de cordel.

  2. A Biblia cita Davi tocando harpa e cantando na corte de Saul. Se levarmos em consideração a forma em detrimento do conteúdo podemos localizar a origem do livreto de cordel na mesma época da invenção da imprensa por Gutemberg em meados do século XV

    • De fato, em Gutenberg podemos encontrar as origens da forma. Porém, é válido salientar que a priori, os livros que foram produzidos eram privilégios de poucos, devido seu alto custo e por serem “apanhados” primeiramente pelas elites e com propósitos religiosos. Já o livreto de cordel recebeu esse adjetivo “de cordel” justamente por que literários contemporâneos o taxaram pejorativamente de literatura menor, subliteratura, ou ainda, desmerecendo sua forma de comercialização e exposição, a fragilidade da edição e os destinatários meramente populares, tudo isso e muito mais oriundos de preconceitos elitistas, ideológicos, etc. Sendo assim, podemos perceber que o surgimento do cordel deu-se simultaneamente com a popularização e barateamento dos meios tipográficos o que certamente aconteceu em certo tempo após à primeira façanha gutenberguiana.

  3. Senhores, determinar o indeterminável por mera suposição não leva a conclusões confiáveis. Os livros de alto custo eram os livros manuscritos, desenhados a bico-de-pena nos mosteiros quase sempre com temas religiosos. Com o advento da imprensa pelo sistema de “tipos” é que houve a popularização por conta da produção em série e consequente barateamento. Evidente que a origem do cordel é portuguesa mas apontar, determinar seu inicio é falso por falta de embasamento. O termo “cordel” tanto pode ser pelo fato de serem expostos pendurados em varais de cordas quanto por serem costurados com cordão. Tenho exemplares antigos assim confeccionados.

  4. O avanço da tecnologia e o advento da mídia “internet” só vem a contribuir para o avanço desta riqueza cultural tão linda…
    Parabenizo ao Clécio pela matéria e estendo meus votos de congratulações a todos os amantes da poesia, bem como aqueles que tem esse dom tão perfeito e preciso, seja do Ventre da Poesia (Itapetim), do Berço Imortal da Poesia (São José do Egito) ou da Faculdade da Poesia (Tabira), ou pessoas como eu, meros amadores, que as vezes fazem sonetos secretos que apenas aparece como uma fagulha de inspiração, e ficam guardados num caderninho…

  5. Temos ainda uma suposta origem dos trovadores, quando da ida de Maria Madalena à França. Teria se instalado alí na região dos Pirineus uma devoção a mais fiel discípula do Cristo e se originado a “religião” do AMOR.

    Trovadores corriam as regiões da França cantando histórias sobra a sacerdotiza dessa nova religião que pregava o amor igualitário disseminado por Cristo.

  6. Da França o cordel trouxe muitos temas. Quem aprecia esse tipo de literatura por cento conhece seus clássicos cujos temas falam de Carlos Magno e seus Doze Pares de França, dentre eles Roldão e Oliveiros sempre em luta contra o guerreiro turco Ferrabraz. Exercitos Cruzados, reis normandos. De memória me ocorre um pequeno trecho:

    – Ferrabraz era um gigante de porte descomunal
    -Como nunca houve igual nas terras do Almirante
    -Ele só era bastante para mais de 10 guerreiros
    -Centenas de cavaleiros morreram pelas mão dele
    -Mas só tirou sangue nele a espada de Oliveiros.

  7. Clécio, que bom ver você na equipe do Blog Tabira Hoje.Vamos esperar por postagens interesantes como a primeira, e também pelos debates interessantes e educativos que a mesma despertou.
    Um grande abraço.

  8. Obrigado a todos que acompanharam a minha 1ª postagem publicada aqui no Tabira Hoje. Sempre estaremos procurando trazer pra este espaço debates com temas culturais. Um forte abraço a todos!

  9. resumindo…rasguem mas explikem…quem? ! eu tô mostrando q tô na faculdade , me achando na minha cultura forçada…arroxa depois afroxaa!

  10. Conversando com o diabo.

    Andando por longa estrada,
    Quase toda ela esburacada
    Já quase no clarear do dia.
    Vi um vulto, todo rangendo,
    Uma capa preta se erguendo
    Chamei logo por virgem Maria.

    Não se apoquentes menino,
    Sou filho de João Severino
    Que era neto de cangaceiro
    Só estou aqui de passagem,
    Não ligue pra minha imagem
    O diabo é meu companheiro.

    Meu pai foi que fez o trato,
    Com um cara de pé de pato
    Que morava lá nos inferno.
    Não sei o que tá contratado
    Mas sei que fui condenado
    A ser seu escravo eterno.

    Não tenhas medo de mim,
    Pois eu sempre fui assim
    Feio e muito mal acabado.
    Sejamos só companheiros,
    Pois eu sou um cavalheiro
    Não temas ser maltratado.

    Fiquei com olhos fechados,
    Um pouco meio assustado
    Sem saber se era verdade.
    O vulto Foi rápido embora
    Estou tremendo até agora.
    Fugindo desta amizade.

    Voltei pra casa, correndo.
    Algo quente tava descendo
    Das minhas calças molhada.
    Foi o medo que lá passei
    E até agora mesmo não sei
    Se era uma alma penada.

    Paulo Luiz Mendonça

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