Novo ensino médio vai mexer na rotina de 7,5 milhões de alunos. Entenda como será em Pernambuco

Em Pernambuco, 116 mil adolescentes estão no 1º ano do ensino médio, série que começa com o novo modelo de ensino médio em 2022

Jovens terão a chance de escolher trilhas diferentes de aprendizagem, a partir de itinerários formativos que serão ofertados por cada escola

Alunos, professores, coordenadores e gestores do ensino médio, de colégios públicos e privados do País, iniciaram o ano letivo com um desafio que não tem a ver com os riscos da pandemia de covid-19 no ambiente escolar. Quem está começando a última etapa da educação básica vivencia a implementação do novo ensino médio, um formato que aumenta o tempo de permanência na escola, mexe no currículo, provoca os estudantes a serem protagonistas e exigirá dos docentes novas práticas de ensino. Motivo de protestos e ocupações de estabelecimentos educacionais seis anos atrás, em 2016 (e que provocou até o adiamento do Enem), o modelo será implementado gradualmente, até 2024, e vai impactar na vida escolar de 7,5 milhões de adolescentes e jovens e meio milhão de professores brasileiros.

Educadores concordam com a necessidade de modificar o ensino médio para um modelo menos engessado, tornando-o mais flexível. Entre as preocupações estão a preparação dos docentes e a estrutura das escolas, sobretudo as públicas. Nestes primeiros dias letivos de fevereiro, os sentimentos entre os principais atores das escolas são de adaptação, ajustes e experimentação. O novo modelo valerá, este ano, apenas para alunos da 1ª série. Em 2023 as mudanças serão para os dois anos iniciais e em 2024 completa com as três séries.

Em Pernambuco, segundo o Censo Escolar 2020 do Ministério da Educação, há 342.892 alunos no ensino médio, sendo 309.052 nas escolas públicas. Baseado nesses números, o universo de estudantes que começa o ensino médio agora é de pelo menos 116 mil adolescentes.

MAIS TEMPO

Uma das mudanças é a carga horária. Passará de 2.400 horas para 3 mil horas. Por ano devem ser ministradas pelo menos 1 mil horas. No Estado essa alteração não deve trazer muita diferença, uma vez que na rede estadual 75% dos estudantes estudam nas escolas integrais, que já oferecem entre 3.500 a 4.500 horas. “E mesmo nas escolas que são do ensino médio regular já adotávamos, na maioria delas, uma jornada ampliada”, explica a secretária executiva de Desenvolvimento da Educação de Pernambuco, Ana Selva.

“Os colégios particulares, na prática, também passam das mil horas em cada série do ensino médio, principalmente no 3º ano devido à preparação para o Enem e o vestibular seriado da UPE”, observa o presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Pernambuco (Sinepe), José Ricardo Diniz.

CURRÍCULO

O currículo será dividido em duas partes: uma igual para todas unidades de ensino, chamada de Formação Geral Básica (FGB), que inclui as disciplinas já conhecidas; outra serão os Itinerários Formativos (IF). É nessa parte que cada estabelecimento de ensino ou rede poderá se diferenciar dos demais, uma vez que terão a liberdade de definir quais são os itinerários oferecidos, a partir do perfil da sua comunidade escolar.

Projeto de vida, aulas que vão permitir que os estudantes reflitam sobre o que desejam para si e como conquistar, e disciplinas eletivas, que igualmente serão definidas conforme a preferência dos discentes e a disponibilidade das escolas, são outras novidades na grade curricular. E que já fazem parte da rotina das escolas integrais estaduais de Pernambuco.

“Optamos por colocar a carga horária maior de formação geral básica no 1º ano, com 800 horas, como fez a maioria dos Estados, e 200 para os itinerários formativos. Entendemos que assim haverá uma transição mais tranquila desse aluno que chega do ensino fundamental, principalmente depois dele passar dois anos longe da escola por causa da pandemia”, explica Ana Selva. No 2º ano serão 600 horas de FGB e 400 de IF, respectivamente e no 3º ano, 400 de FGB e 600 de IF. Os estudantes terão também investigação científica e tecnologia e inovação.

Nas escolas privadas, segundo José Ricardo, a maioria vai optar por dividir a carga horária igualmente nas três séries: 600 horas de FGB e 400 de IF a cada ano. Mas isso vai de acordo com o planejamento de cada colégio.

CRÍTICAS

“Há uma redução de conteúdos de disciplinas estruturadoras e importantes para a formação integral dos jovens. Na escolas estaduais, filosofia, por exemplo, será dada no 1º ano e com menor quantidade de aulas. É uma diminuição drástica do direito à educação”, diz a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (Sintepe), Ivone Caetano. “Professores e gestores estão inseguros. Não acredito que será uma implementação tranquila”, ressalta Ivete. Ana Selva discorda. “Nossos docentes têm uma boa experiência com o ensino integral, que tem muito do que está no novo ensino médio”, diz.

O presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Heleno Araújo, demonstra preocupação com a preparação do docente. “Em português, 25% dos professores que ensinam a disciplina não são formados na área. Em matemática, 26%. Outro problema é o grande número de contratos temporários nas redes públicas, o que fragiliza o processo educacional”, observa.

ENEM

É evidente que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a avaliação que mede o conhecimento do estudante ao concluir o ensino médio, terá que mudar após a implementação total do novo ensino médio. Os alunos que começarão a última etapa da educação básica este ano vão encarar, em 2024, um exame diferente do atual. A promessa do Ministério da Educação é divulgar ainda este ano detalhes de como será o exame daqui a dois anos.

Atualmente, o Enem é formado por cinco provas, sendo uma subjetiva (redação) e quatro objetivas (linguagens, ciências da natureza, matemática e ciências humanas) e realizado em dois dias. Pela proposta do MEC, o novo Enem continuará em dois dias. O primeiro vai avaliar o candidato com conteúdos de formação geral básica e segundo com os itinerários formativos.

O desafio vai ser justamente no segundo dia do Enem, uma vez que cada escola ou rede de ensino terá itinerários formativos diferentes. Como, então, avaliar igualmente jovens de todo o Brasil que receberam formações distintas?

Lembrando que o Enem é porta de acesso a mais de cem universidades públicas brasileiras, por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), plataforma digital que reúne vagas em graduações e usa a nota do exame para selecionar os candidatos. Todas as cinco universidades públicas de Pernambuco usam o Sisu para selecionar seus alunos das graduações (UFPE, UFRPE, UFAPE, Univasf e UPE).

“Esperamos que o MEC cumpra o prometido e divulgue o quanto antes o detalhamento de como será o novo Enem para que possamos nos organizar. Saber como os itinerários formativos serão cobrados nas provas é muito importante”, observa a secretária executiva de Educação de Pernambuco, Ana Selva.

SERIADO

Também para atender o novo ensino médio, o Sistema Seriado de Avaliação (SSA), vestibular seriado adotado pela Universidade de Pernambuco (UPE) passará por mudanças. Neste formato de seleção, o estudante é avaliado três vezes, ao final de cada série do ensino médio, mas só concorre às vagas de graduação no último ano. A UPE destina 50% das vagas para o vestibular seriado, um total de 1.740.

Para os estudantes que estão cursando em 2022 o 2º e o 3º anos do ensino médio permanecerá o atual formato, com a cobrança apenas das disciplinas que já integram o currículo dessa etapa. Portanto, esses alunos que já iniciaram o SSA não serão afetados pelas alterações.

As mudanças passam a valer para os estudantes do 1º ano, ou seja, os que vão começar o seriado em 2022. No primeiro dia de provas do SSA 3, voltado para os concluintes, haverá cinco provas: redação, a única subjetiva, e mais quatro objetivas das quatro áreas do conhecimento da FGB (num total de 40 questões). O segundo dia terá 60 quesitos sobre os itinerários formativos que estiverem atrelados ao curso que graduação que o jovem se inscrever no SSA 3.

ENTENDA ALGUMAS MUDANÇAS

* Carga horária

– Atualmente, os três anos do ensino médio somam 2.400 horas no total. Passarão para 3 mil horas, com exigência de no mínimo a oferta de 1 mil horas por série. Devendo ser destinado 1800 horas para formação geral básica e 1.200 horas para os itinerários formativos.
Cada rede ou escola decide como fará a distribuição da carga horária em cada ano

* Currículo

– Passa a ser dividido em Formação Geral Básica (FGB) e Itinerários formativos (IF)

– A Formação Geral Básica deve ter no máximo 1.800 horas. É aí que estão os componentes curriculares a que os alunos estão habituados: química, matemática, história, entre outros. Serão organizadas em quatro áreas de conhecimento: linguagens, matemática, ciências da natureza e ciências humanas e sociais aplicadas

– As outras 1.200 horas são destinadas aos Itinerários formativos. Nesse grupo os conteúdos podem variar conforme a rede ou escola, desde que façam parte de uma das cinco áreas do conhecimento (linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e sociais e aplicadas e formação técnica e profissional)

– O aluno vai escolher o itinerário que quer aprofundar, baseado no que a sua escola vai oferecer. O itinerário pode reunir uma ou mais área do conhecimento

– Dentro dos itinerários formativos, o jovem vai estar estimulado a desenvolver competências e habilidades que estejam relacionadas ao autoconhecimento, ao protagonismo e à resiliência, com aulas durante todo o ensino médio, é o chamado projeto de vida. Também haverá eletivas, que são unidades curriculares ofertadas por cada escola de acordo com o perfil dos seus alunos e docentes

– Os componentes curriculares de língua portuguesa e matemática devem ser ofertadas obrigatoriamente nas três séries do ensino médio. E o currículo do ensino médio deve incluir obrigatoriamente o estudo da língua inglesa.

– Os demais componentes curriculares não precisam, necessariamente, aparecer em todas as séries separadamente. Na rede estadual de Pernambuco, por exemplo, filosofia será ministrada apenas no 1º ano, enquanto sociologia só será vista no 2º ano. Mas os conhecimentos desses componentes curriculares estão presentes dentro das trilhas de aprofundamento dos itinerários formativos

COMO SERÁ NA REDE PRIVADA DE PERNAMBUCO

* Cada escola terá autonomia para fazer a distribuição da carga horária como quiser. Segundo o Sinepe, a maioria vai optar por dividir igualmente: ministrar 600 horas de FGB e 400 de IF em cada série

* Também cada colégio poderá montar os itinerários formativos que quiser, desde que dentro das áreas previstas. Também conforme o Sinepe, poucas vão oferecer a formação técnica e profissional

COMO SERÁ NA REDE ESTADUAL DE PERNAMBUCO

* No 1º ano os estudantes terão 800 horas de aulas de formação geral básica, com aulas dos componentes curriculares a que já estão acostumados e mais 200 horas de itinerários formativos. No 2º ano serão 600 e 400, respectivamente e no 3º ano, 400 de FGB e 600 de IF

* Todas as escolas vão ofertar projeto de vida e as unidades curriculares eletivas também durante todo o ano, nas três séries, dentro da parte de itinerário formativo

* Nos itinerários formativos foram criadas, pela Secretaria Estadual de Educação, 18 trilhas, que envolvem uma ou duas áreas do conhecimento. Cada escola já escolheu as trilhas que vai ofertar (pode ser mais de uma). Essas trilhas serão as mesmas durante todo o ensino médio naquela escola

* Em todas as trilhas, no 1º ano, a unidade curricular obrigatória no primeiro semestre será investigação científica e no segundo, tecnologia e inovação.

Por exemplo:

O colégio X vai oferecer a trilha Comunicação e a trilha Meio ambiente e sociedade. O colégio Y escolheu as trilhas Comunicação e Soluções ótimas. Dentro da trilha Comunicação, ambas vão ministrar 16 unidades curriculares (obrigatórias).

E cada escola vai escolher mais seis unidades curriculares optativas que podem ser as mesmas ou não, isso vai de acordo com cada escola. A escolha será feita a partir das opções disponibilizadas para cada uma das trilhas presentes no novo Currículo de Pernambuco para o Ensino Médio

Trilhas específicas (definidas pela Secretaria Estadual de Educação)

Linguagens
ComunicAÇÃO
Línguas e Culturas de mundo
Identidades e expressividades

Matemática
Soluções ótimas

Ciências humanas e sociais aplicadas
Direitos humanos e participação social
Juventudes, liberdade e protagonismo

Ciências da natureza
Saúde coletiva e qualidade de vida
Meio ambiente e sociedade

Trilhas Integradas (A Escola pode escolher juntar duas áreas)

Humanas e Natureza -Desenvolvimento social e sustentabilidade
Natureza e Linguagens – Modos de vida, cuidado e inventividade
Linguagens e Humanas – Diversidade Cultural e Territórios
Matemática e Linguagens -MatematizAÇÃO design e criatividade
Natureza e Matemática -Tecnologias digitais
Matemática e Humanas -Possibilidades em rede e humanização dos espaços

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